Archive | Janeiro 2014

A ESTRADA

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Estava pronto para cruzar a estrada, e avistei uma mala.

Ao abrir, vi coisas do passado que não podia deixar para trás:

As lembranças dos dias felizes, aqueles que amei, algumas apenas fantasiei, 

a esperança em dias melhores, os sonhos e as realizações,

meu olhar quando era criança e tudo era simples e doce.

Peguei minha mala, estava pesada.

Dei uma última olhada no que deixaria para trás, e

parti, com um leve sorriso no canto dos lábios.

 

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ACID

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Amores ácidos,

chuva ácida,

que molha e corrói a alma.

Daqueles que se doam.

E que doa. 

Que corroa.

Que se foda.

E que escoa pelo ralo, 

junto às lágrimas perdidas.

Do seu descaso.

E do meu desagrado.

AI!

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“Ai!”

Uma palavra tão pequenina e dúbia.

Interjeição que causa demasiada confusão.

Afinal, tanto pode ser expresso na dor e alegria quanto no tesão.

Na dor de uma mordida na ponta da língua de um exímio falante,

na cera quente da vaidade ou no choque de uma tomada traiçoeira.

Sentida também quando me pegas de jeito, mordisca minha orelha e aguça minha tara.

“Ai!”

Um beliscão de repreensão.

A tara de Julieta ao encontrar-se com Romeu.

A faca e o queijo na mão,

Daquela que pega a goiabada da geladeira, corta um pequeno pedaço,

Une as duas partes com gula e diz: ” Ai!”,que vontade.

Um “ai” que é como um gozo,

um poço, onde aos poucos quero me afundar.

Afundar-me em luxúria, como as mais belas putas das noites nuas,

Das noites cruas.

E da noite sua.

 

 

EXALTAÇÃO À UMA MORTE PATÉTICA

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Num gesto de desespero, após o suar da camisa, 

ela se  olha no espelho nua.

A carne trêmula de uma uma alma pequena,

envenenada pelo ódio e pena,

indigna e indigesta de estar ali.

Apareço e  faço um pequeno estrago,

uma pequena ferida corrói seu braço.

Vejo o sangue surgir.

Os batimentos se intensificam aqui.

A escuridão conforta-se no sofá de madeira de lei.

A pele amarela ganha um vermelho vivo.

Pegajosa e ardilosa assume o cenário de seu delito.

Conforme me movimento o sangue se apressa a sair.

Esforça-se para chegar ao meu retrato favorito.

Queres banhá- lo em vermelho, 

ofertar o que resta de si.

Um brinde ao passado que não mais será lembrado,

Assim como você, serei parte do passado,

lembrada talvez,

no dia de finados.

NO BANHO

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Tornei-me prisioneira da minha própria tara,

ao vê-lo cheio da graça,

barbeando-se de frente ao espelho.

Acordava sempre cedo, barraca armada, definitivamente não ligava.

Tão confiante, natural,

não percebia que a cada dia, mexia com minhas fantasias.

Dividíamos o mesmo espaço. Dois quartos e um banheiro,

Na cozinha um aperto. Na sala um despejo de nossa materialidade.

Livros, filmes, CDs, tudo que gostávamos ficava ali.

Não me importava em apenas vê-lo. O desejava em meus sonhos, imaginava o formato e como o manipulava.

Tudo lírico, poético, até aquele 31 de dezembro.

Depois de muita bebida, chegamos inteiros. Levei-o ao banheiro e abri o chuveiro.

Tirei sua camisa, seus sapatos e meias. Abaixei suas calças e como um tapa na cara fiquei cara a cara com o que me provocava.

Dei de costas. E no primeiro passo, você me tomou em seus braços.

Puxada firme, direta e severa.

Beijos molhados, libido ativada, desejo aflorado.

Sou tomada em seus braços, vítima do acaso.

Apertos, mordidas, passadas de língua, chupões barulhentos,

dedos, mãos, pau, buceta, palpitações, gozo e mais gozo.

E a água correndo… seguindo o fluxo.

Assim como nós seguimos o nosso.

O fluxo do instinto. Da vontade, do momento.

Acordamos no outro dia, no meio da nossa materialidade,

Na sala de estar.

Onde compartilhamos o que é material e as vezes banal.

Elevamos o grau de importância da nossa sala de estar,

Com lembranças da água correndo, levando o gozo do nosso momento.

SUFOCO

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Passei um sufoco dos grandes. O ar me faltou aos pulmões.

Uma sensação de perda do que não se tem e de coisas que talvez nunca terá.

Uma briga para desafogar um grito contido.

Uma vontade contida.

A agonia de quem parece morrer. 

Tive uma experiência. Tudo ficou preto. E enfim, uma luz.

Um barulho que me parecia querer estoura meus tímpanos. 

Um misto de saliva e vômito saiu garganta acima. 

Acho que foi veneno. O veneno chamado “ego”. 

Um veneno egoísta. Egoísmo por querer o que não se pode ter.

Por querer tudo de uma vez. Colocar o chamado “carro na frente dos bois”.

Dominar, controlar, manipular.

Somos todos assim. Desde nossa mais inocente infância.

Manipulamos quem cuida da gente para conseguir suprir nossas necessidades primárias e secundárias.

Crescemos e continuamos mais cruéis. Só nos satisfaz aquilo é para nosso próprio deleite.

Usamos e somos usados. Manipulamos e somos manipulados. 

Um joguinho em que não há vencedores e nem perdedores.

Pode me achar extremista, mas na verdade não dou a mínima.

Veja, sou tão egoísta que não deixei que o sufoco me tirasse o ar.

Não foi dessa vez que morri. Pelo contrário, ressurgi.

Para relatar minha pequena e insignificante experiência.

Tirar proveito da minha própria desgraça. Do meu exagero.

Talvez daqui a um tempo eu venha rir de tudo isso.

Por enquanto só me resta limpar a sujeira de mim mesma. 

Os cacos. 

Amanhã é um novo dia.  Espero que menos egoísta, de fato.