Archive | Outubro 2013

SÓ UMA QUESTÃO DE TEMPO

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Curioso como nos deixamos envolver,

pela alegria alheia,

pela desgraça alheia,

pelo sadismo alheio.

Ora, cuidemos de nossas próprias vidas!

Desprendemos-nos de nós mesmos, de nossas vidas,

na ilusão que a grama do vizinho é sempre a mais verde.

Mas é plantada sob a mesma terra, regada com a mesma água.

Mas a maneira, a atenção dedicada,

Isso sim determina como essa grama vai crescer.

É tudo uma questão de tempo.

Mais cedo ou mais tarde veremos,

A alegria, a tristeza, a graça e a desgraça, o sadismo e o lirismo,

enterrados sob o mesmo solo.

Mas enquanto isso,

Viva a sua vida,

Pois é só uma questão de tempo,

até nada mais fazer sentido.

Nem a alegria, nem o sadismo,

nem a  água,

muito menos a grama do vizinho.

ÓCIO CRIATIVO

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Trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar?

Eis a questão.

Se trabalho, como.

Se não trabalho, me comem…

Quem me come?

Nossa amada sociedade predatória.

Sociedade essa criada e nutrida por nós mesmos.

Tudo que  André queria era estar em casa, lendo o jornal de ontem, com as mesmas ideias de anteontem que narra os fatos do amanhã e do depois de amanhã.

Nada de novo no front.

Apenas a certeza que as amarras da marionete social querem ser rompidas.

Mas se são rompidas, como viver? O que comer?

Porque se trabalho, como. Se não, não como. E meus irmãos também não comem.

Vivemos numa corrente que balança. Balança mas não cai.

Se cair, morremos todos.

Rei, capitão, polícia e ladrão.

Não quero buscar explicações e muito menos explicar.

Quero apenas um lugar para saudar. Alimentar meu ócio criativo.

Ah Domênico, se todos te dessem ouvidos, nesse mundo sem sentido!

Alimentaria meu ego com um bom livro e um bom vinho.

Vislumbrando um caminho. Com menos pedras no caminho.

Ouço um pigarro de reclamação. É o meu chefe, controlador de plantão.

Penso: “ Puta que pariu, “ bora ” trabalhar”.

Deixo o filósofo pra lá, senão, além de não comer, sou mandado embora por justa causa.

SONHO

Sonhei que caminhava num labirinto,

à procura de um indício,

de tudo que é real e tudo que  é imaginário.

Procurando uma luz, que me ajudasse a discernir,

o certo do errado,

o fato do acaso.

Mas dizem que nada é por acaso, 

quem disse, tem provas?

Ou será apenas uma fuga para a frustração?

Sei não.

O que sei é que no meu sonho continuei a procurar,

até me deparar, com alguém sentado numa cadeira.

Estava de costas, olhando para uma porta azul turquesa.

Chamei-lhe a atenção, nenhum sinal de resposta.

Coloque-me de frente a ela e tive uma surpresa.

A pessoa sentada na cadeira era eu!

Mais velha, com rugas. O mesmo olhar, a mesma boca carnuda.

E olhos vidrados na porta. 

Porta essa, que ao invés de número, tinha um nome.

“Decisão”.

Aí esta a questão: Decidir, postergar, se permitir, anular…

O ELEVADOR

Era quatro horas da tarde de um 31 de outubro. André e Eliza, trabalhavam na mesma agência de publicidade, mas o ritmo agitado do lugar não garantia muito entrosamento entre os dois. Ele, 35 anos, barba na cara e ar de intelectual. Ela, 25, recém formada e olhos curiosos. Ambos atraentes. Solitários. Se deixaram levar pela vida caótica e superficial de uma cidade que não dorme.

Estavam indo embora, ela já estava no elevador quando ele chega de repente, a porta quase fechando.

Décimo andar, nono, oitavo, sétimo, bum. Queda de energia. Um tranco no elevador e as pastas de Eliza caem aos pés de André. Ela se abaixa, fica de joelhos na frente dele. Não há nada a dizer, ela começa a recolher as pastas do chão.

De súbito ele se abaixa e a olha nos olhos. O rosto dela ferve, os olhos dele queimam ao olhar para ela. Ele encosta a mão no rosto dela. Os olhos curiosos dela avançam sobre ele. Ela o quer. E muito. Ele também anseia por isso. O corpo dele não nega.

Beijos desesperados, apertos, camisa desabotoada, saia levantada. Toques, carícias, um mar de vontades reprimidas.

Idealizações rompidas. Diante da prática não há espaço para idealizações.

O elevador começa a descer novamente. Sétimo, ele massageia o íntimo dela. Sexto, ela agarra forte o membro que já estava ereto desde o décimo.

Quinto, ela o chupa com vigor, mas o tempo é curto, afinal já estão perto do terceiro andar.

Segundo, e apenas um segundo a mais para se recomporem, para a seriedade e o profissionalismo tomarem conta de suas vidas.

A porta se abre, Eliza sai, André fica. Ela o dá uma ultima olhada, um breve até logo.

Quem sabe o que virá de algo tão repentino. Apenas vivendo para saber.